O que aconteceu com a Beleza na construção de nossas igrejas? — Parte 02: Como tudo começou.

“Vivemos dias em que o púlpito virou palco, o louvor virou banda e a congregação, audiência.” — Autor desconhecido
“Acaso, é tempo de habitardes vós em casas apaineladas, enquanto esta casa permanece em ruínas? Ora, pois, assim diz o Senhor dos Exércitos: Considerai o vosso passado.” (Ageu 1:4–5)

É evidente que, de acordo com a visão reformada, nossas edificações de igrejas não exercem mais a mesma função do Templo no Antigo Testamento, pois este apontava para Cristo, e o templo físico não desempenha mais o mesmo papel veterotestamentário. No entanto, esse fato de nenhum modo justifica o abandono da beleza e, consequentemente, da simbologia de nossas igrejas, bem como o esquecimento de que glorificamos a Deus também através da Arquitetura e da Arte. Deus também se importa com a Beleza e com a Arte. Ele é o supremo artista, arquiteto e construtor.
Para compreendermos como chegamos até os nossos dias, é importante termos um breve panorama sobre a história da construção de templos. Considera-se que o início se deu com a ordenação do próprio Deus para o Tabernáculo (Êxodo 25–27 e 36–40), feito sob direção de Moisés, com a participação de artistas/artesãos como Bezalel e Aoliabe. Depois, com grande arte e beleza, foi construído o templo de Salomão. Esses dois exemplos bíblicos seguiam rigorosamente ordens divinas. E me farão um santuário, e habitarei no meio deles. Conforme tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis. (Êxodo 25:8–9)
A estrutura geral do tabernáculo era de Pátio externo: Espaço aberto cercado por cortinas de linho, contendo o altar de holocausto e uma bacia de bronze. Tenda: Dividida em duas partes: Lugar Santo: Continha a mesa dos pães da proposição, o candelabro de ouro e o altar de incenso. Santo dos Santos: Abrigava a Arca da Aliança, coberta pelo propiciatório (tampa da arca), onde a presença divina se manifestava. O Templo de Salomão, descrito em 1 Reis 6–7 e 2 Crônicas 3–4, era uma estrutura permanente e monumental construída em Jerusalém.
“A arte foi usada por Deus na infância da Igreja quando esta se restringia ao povo de Israel. Naquele tempo, o Senhor a sujeitou para servir de aio. Através das formas, símbolos e tipos, Cristo foi apresentado ao povo. Havia beleza.” (COSTA, 2017).
Com a vinda de Cristo e surgimento da Igreja Primitiva (At 2), os cristãos passaram a se reunir principalmente de casa em casa. Há também registros de catacumbas, que eram túmulos subterrâneos usados por comunidades cristãs para enterrar seus mártires e realizar ritos litúrgicos. De acordo com descobertas feitas, nelas foram encontradas diversas pinturas em afrescos e ornamentos que foram alvo de estudo da Arte Paleocristã. Esse período foi fortemente caracterizado por perseguições e martírios. A Arte e a Arquitetura, portanto, ficaram limitadas a pequenas expressões, não por sua falta de importância, como alguns alegam, mas pelas fortes restrições e contexto histórico.
“Os cristãos estabeleceram casas comunitárias com um salão de culto, um batistério e cômodos para ajudar os necessitados. Eles também organizaram cemitérios separados para afastar seus funerais dos de outras religiões” (FAZIO et al., 2011, p. 153).

Com a consolidação do Cristianismo e maior liberdade através do Édito de Milão, os cristãos começaram a adaptar construções romanas chamadas de basílicas para o uso de culto. Já na Idade Média, os templos atingiram o ápice de refinamento simbólico com o amadurecimento e desenvolvimento de novas técnicas construtivas.
O estilo Românico de construção dos monastérios e catedrais no início da Idade Média continha características singulares como paredes de pedra com grande espessura para suportar as abóbadas de berço, poucas aberturas, utilização de colunas e arcos plenos, bem como contrafortes e plantas cruciformes. Elas consistiam em uma grande nave e duas alas transversais, que davam à planta um formato de cruz. E, enquanto as antigas basílicas tinham tetos de madeira, o estilo românico em seu lugar os substituiu por tetos de pedra abobadados.
Com o tempo, outras técnicas foram desenvolvidas e aperfeiçoadas e, assim, uma nova linguagem arquitetônica surgiu e marcou o maior período da Idade Média, sobressaindo-se e gerando estupefação até os dias atuais: a Arquitetura Gótica. Dentre os sistemas avançados, podemos citar as abóbadas nervuradas cujas arestas ressaltavam-se na pedra ao longo da coluna até o solo, dando a todo o edifício uma impressão de grande verticalidade. As abóbodas transferiam as cargas para os pilares, permitindo um pé-direito mais alto, aberturas maiores e paredes mais finas. E, com essas aberturas, a luz foi capaz de penetrar-se no interior das catedrais de forma bela, refletindo como que a Luz Divina no espaço. Nas janelas, grandes vitrais contavam histórias bíblicas com imagens iluminadas no interior, produzindo encanto e deslumbramento.
As igrejas da Idade Média tinham dois propósitos principais, um didático e o outro de culto. O propósito didático compreendemos recordando que era uma época em que os livros eram escassos, bem como os que sabiam lê-los. Nessa situação, as igrejas se transformaram nos livros dos analfabetos. (GONZALEZ, 2011)
O resultado final da aplicação de todas essas novas técnicas construtivas características do estilo gótico foi o de imponentes e belas catedrais, “testemunhos de pedra”, nas quais esse material, segundo GONZALEZ, adquiria uma leveza inusitada, elevando-se ao céu. As obras góticas passaram a reproduzir a partir de então três novas concepções: o uso da luz, uma nova relação entre forma e função, e interligação entre estrutura e aparência. A metafísica da luz, que diz respeito a como a luz material é um reflexo da luz divina, era vista como capaz de encaminhar e apontar para a verdadeira Luz.
Mas, em 1517, um acontecimento importante se deu na História da Igreja: a Reforma Protestante. As igrejas reformadas surgiram logo após a manifestação de Lutero e o aparecimento do Protestantismo, tendo início na Suíça com outro ex-sacerdote chamado Ulrico Zuínglio (1484–1531), e posteriormente João Calvino (1509–1564) em Genebra. Esse movimento distinto da Reforma Alemã ficou conhecido como Segunda Reforma ou Reforma Suíça. Os lemas que guiaram a Reforma Protestante foram conhecidos como os cinco Solas: Soli Deo Gloria (Glória Somente a Deus), Sola Fide (Somente a Fé),Sola Gratia (Somente a Graça), Solus Christus (Somente Cristo), Sola Scriptura (Somente as Escrituras). Assim, a visão protestante reformada influenciou as Artes e a arquitetura de forma singular.

E o próprio Calvino não se opôs ao uso legítimo da arte, mas encorajou e até mesmo recomendou, como suas próprias palavras prontamente provam. Quando a Escritura menciona a primeira aparição da arte nas tendas de Jubal, que inventou a harpa e o órgão, Calvino recorda-nos enfaticamente que esta passagem trata dos “excelentes dons do Espírito Santo”. Ele declara que, quanto ao instinto artístico, Deus tinha enriquecido Jubal e sua posteridade com raros dons naturais. E, abertamente, declara que esses poderes inventivos da arte são o mais evidente testemunho do favor divino. Ele declara mais enfaticamente ainda, em seu comentário sobre Êxodo, que “todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas” (KUYPER, 2011).
A arquitetura Barroca, surgida no contexto de Contra Reforma, deu ênfase no exagero ornamental, uso de imagens, teatralidade e jogo de luz. Enquanto os artistas reformados optaram por retornar às formas mais apropriadas para a expressão da fé protestante, no qual o Neogótico tomou força nos séculos mais tarde, pois esse era visto como o estilo mais ideal para expressar a fé cristã. A cosmovisão reformada, portanto, não negou a importância da Arte e da Beleza para o cristão. Antes, diversos templos foram adaptados e construídos mantendo os aspectos simbólicos e essenciais da fé.

Ao que se refere à arquitetura das igrejas protestantes, no início, não existiu um estilo de igreja propriamente protestante. O que existiram foram apropriações e adaptações de templos e estilos usados pelos católicos com um novo pensamento reformado de culto e doutrina, até porque os reformadores buscavam reformar e retornar às Escrituras e ao ensino da Igreja Primitiva; as igrejas foram “reformadas”. Segundo Matos (2005), a ruptura do protestantismo com as crenças católicas buscou a distinção entre as doutrinas. E essa distinção, com o tempo, se tornou evidente na arquitetura. O culto foi simplificado, imagens e rituais que foram considerados exagerados, excessivos e não bíblicos foram extintos. Um fato curioso é que as igrejas não eram comumente equipadas com bancos permanentes antes da Reforma Protestante. A ascensão do sermão como um ato central do culto cristão, especialmente no Protestantismo, fez do banco um item padrão da mobília da igreja.

Na missa católica, por exemplo, o altar tem um significado sacrificial, que de certa forma foi resgatado da tradição judaica. No entanto, na visão reformada, já não existe esse pensamento de que o culto seja um ato sacrificial. A centralização do culto reformado, portanto, não está no altar e sim na Palavra, ou seja, no púlpito, o local onde a Bíblia deve ser pregada. Embora tenham sido aplicadas todas essas alterações na construção, a beleza dos templos ainda era buscada como uma forma de glorificar a Deus.
Já no Brasil, por muito tempo foi proibida a construção de templos protestantes, sendo a predominância de igrejas católicas, em grande parte coloniais e barrocas. A Constituição de 1824, apesar de garantir a liberdade de culto privado, restringe no Art.5 o culto público de outras religiões, “permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo”. Igrejas protestantes podiam existir, mas suas construções não podiam ostentar aparência de templo ou símbolos religiosos externos. É inegável que isso teve uma grande influência na nossa arquitetura. Mas, após a liberação com a proclamação da República, os protestantes conseguiram construir belos templos que expressavam sua fé. Logo, é evidente que o local de culto sempre foi visto como algo importante no meio cristão.

Mas, então, se não foi o pensamento reformado que promoveu a feiura em nossas construções eclesiásticas, o que foi? A partir do pensamento pós-moderno e com o Modernismo na Arte, o conceito de Belo foi questionado, tornando tudo relativo e condenando o uso de ornamentos na arquitetura. “Forma segue a função” foi um lema cunhado por Louis Sullivan (1856–1924), e resume bem o pensamento modernista e funcionalista, predominante em nossos dias. Também o “menos é mais” do modernista Ludwig Mies van der Rohe (1886–1969) contribuiu imensamente para a promoção dessa visão de arte. Desse movimento modernista, derivou-se novas igrejas que perderam seu aspecto de expressão de fé e beleza, cujas formas não são facilmente identificáveis.
Veja a comparação da Catedral de Notre-Dame de Paris para a igreja de Notre-Dame projetada por Le Corbusier (1955), um dos principais nomes do Modernismo. Enquanto numa, nota-se sem muita dificuldade que se trata de uma igreja por seus elementos simbólicos, na outra, perdura uma dúvida: É uma nave espacial? É uma casa? O que ela comunica em relação à fé cristã? Por que não conseguimos admirar e encontrar nela o mesmo grau de beleza da obra de Paris?

Após o movimento modernista, a construção de igrejas passou a ser guiada, em grande parte, por uma adaptação às demandas da modernidade e da tecnologia. Além disso, o Pragmatismo também teve grande influência nessa forma de construção, pois, se trata de uma doutrina filosófica que considera que as ideias só têm valor quando produzem efeitos práticos, focando assim mais nos resultados, apesar dos meios, numa busca prioritária por agradar pessoas para que a igreja cresça numericamente, em vez de agradar a Deus.
“O movimento de crescimento da Igreja, inconscientemente fundindo influências gnósticas com tendências modernas de marketing, liberta as igrejas de todo aquele “material pesado”. Como um shopping center, o prédio de uma igreja contemporânea é projetado para ser utilizado para inúmeros fins, não para adoração. Afinal de contas, se a transcendência de Deus não é mais considerada importante, quem precisa de uma arquitetura “eclesial” se pondo no caminho da “experiência de adoração”? O objetivo do projetista é criar uma atmosfera de neutralidade e conforto para o povo, não evocar um senso de santidade divina para os adoradores[…]” (Michael Horton, A Face de Deus, p. 27).

Não se trata mais apenas de edifícios que frequentemente se assemelham a lojas comerciais, mas também de espaços projetados como casas de show. Um exemplo são as polêmicas igrejas de paredes pretas, originalmente concebidas para atender necessidades específicas de sonorização, gravação e, acima de tudo, uma estética “contemporânea” que reflete um desejo de parecer descolada, moderna e cool. Contudo, essas estruturas frequentemente parecem mais priorizar um culto antropocêntrico, focado no homem, em detrimento de um culto teocêntrico, centrado em Deus. Nesse contexto, torna-se indispensável uma reflexão: é necessário resgatar a construção de igrejas que expressem a Beleza. Não porque a beleza, isoladamente, seja o objetivo final, mas porque ela é parte essencial do papel do artista cristão. E, como dito na Parte 01, essa Beleza deve estar unida à Verdade e Bondade, refletindo, portanto, aquilo que realmente cremos. Por fim,
“Não é bíblico atribuir à beleza um papel de eficácia espiritual em sentido estrito, como meio de graça(…) O mandamento cerimonial que instituiu o tabernáculo, por exemplo, foi abolido. Mas jamais o princípio estético (Êx 26.1,31) e de reverência nele veiculado (1 Tm 3.15). Não há nada de mágico quanto ao lugar de culto. Mas nos é requerido, tanto no AT quanto no NT, respeito ao local onde Deus é invocado (Mc 11.17), que inclui obviamente a honra prestada ao seu estilo arquitetônico. O Senhor define o que deve constar no culto neotestamentário como o fez no passado — pregação, cânticos, sacramentos, orações, votos e ofertas. Se há ordem para se cantar no AT, temos a mesma no NT. Cantar com entendimento e com a Palavra (Sl 96; Cl 3.16). Se havia apelo sensorial no AT aos cinco sentidos também no NT, ainda que em menor grau, através do pão, do vinho, da água do batismo e da pregação. A reverência, a verdade e a beleza devem continuar presentes orientadas pelos princípios bíblicos. Claro que por conta do princípio regulador no NT a adoração cristã será mais austera, mas não menos bela por isso.
A simplicidade do culto, no entanto, não serve de motivo para a iconoclastia. Com o termo, refiro-me mais do que simplesmente abominar imagens. Aponto sim para aquele pensamento e atitude típicos avessos à linguagem simbólica, como se o homem fosse um ser desencarnado, capaz de entender tudo sem recorrer à analogia das coisas. Embora o culto do Novo Testamento tenha sofrido uma alteração importante no que diz respeito ao uso da arte, não se pode abandoná-la. O que torna evidente o fato é a criação e o próprio ser de Deus (Gn 1.31; 2.9; 1 Cr 16.27; Sl 96.9). A beleza que irradia de si, o Senhor Deus a impregnou na alma humana para buscá-la. Beleza esta a ser expressa na integralidade da vida, nas ações morais, na construção das casas, na interferência da paisagem e na adoração (COSTA, 2017).
Talvez seja tempo de Reforma! Até a parte 03!
Referências:
GONZÁLEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo. Edições Vida Nova. 2011.
KUYPER, Abraham. Existe um lugar para a Arte, no Calvinismo? Extraído da introdução do excelente livro “Calvinismo”, de Abraham Kuyper, publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã.
SHAEFFER, Francis. Arte e Bíblia. Ultimato, 2009.
COSTA, Wellington. “A Arte e a Beleza no Novo Testamento”. Artigo publicado em 2017 no antigo blog Inconformados, não mais disponível para leitura.
BELING, Éder. Liturgia e Arquitetura: espaço, arte e fé no lugar de culto [recurso eletrônico] / Éder Beling. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2019.
FAZIO, Michael; MOFFET, Marian; WODEHOUSE, Lawrence. A história da arquitetura mundial. 3. ed. Porto Alegre: Amgh, 2011.


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