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O que aconteceu com a Beleza na construção de nossas igrejas? — Parte 01: A Beleza não é relativa.

Foto do escritor: Kesia Almeida
Kesia Almeida
14 de ago.
8 min de leitura

[…] Olhai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, vestiu-se como qualquer deles. (Mateus 6:28b-29)

[…] porque a beleza não é o produto de nossa própria fantasia, nem de nossa percepção subjetiva, mas tem uma existência objetiva, sendo ela mesma a expressão de uma perfeição divina. Tornar-se um cristão é tornar-se vivo para a beleza.” — Dane C. Ortlund
Interior da Abadia de Westminster
Interior da Abadia de Westminster

Creio que há dois erros principais cometidos por aqueles que afirmam que a Beleza “depende dos olhos de quem vê” e, por isso, negam a existência de um fundamento objetivo para julgá-la. O primeiro é confundir opiniões de gosto com o Relativismo, o que leva à perda do verdadeiro significado do conceito de Belo. É essencial compreender que a Beleza não se reduz a uma opinião, sentimento ou orientação subjetiva. O segundo erro é ignorar os fundamentos e parâmetros técnicos da Arte, que permitem avaliar e julgar uma obra com base em critérios objetivos, e não apenas na percepção individual.

Fato é que a definição de Beleza não é algo fácil de ser estabelecido, e tampouco simples de ser explicado. No entanto, o conceito de Belo tem sido alvo de estudo filosófico durante séculos e é bastante complexo para ser reduzido a apenas uma questão de gosto e preferência pessoal. Logo, para compreendermos a Beleza, é necessário entendermos sua relação com a Verdade e a Bondade.

Os termos Verdade, Bondade e Beleza (do grego: alethia, agathos e kalos) surgiram de certa forma eminente na Grécia por volta da época de Platão (c. 428–347 a.C.). No século V a.C., os respeitáveis cidadãos da Pólis, a cidade-estado da Grécia, foram chamados de kalos kai agathos, o “bom e o belo”, denominação esta contraída posteriormente para um único termo: kalokagathia (TURLEY, 2019).

Mas foi no tempo de Platão que surgiu essa interação sistemática entre Verdade, Bondade e Beleza.

O termo grego alethia (Verdade) significa literalmente “revelar ou desvendar”. É uma negação da palavra lethein, cujo significado é “esconder”; a verdade revela a natureza da realidade a nossas capacidades intelectuais, nosso logos.

O termo agathos (Bondade) conota “a excelência de algo ou de alguém” e foi por fim desenvolvido por filósofos para designar a finalidade, o propósito ou o significado da existência. Minha esposa e eu temos um bom casamento, se ambos cumprimos o propósito do casamento; eu tenho um bom relógio, caso ele me indique as horas de forma precisa.

Conforme a Verdade revela a realidade às minhas capacidades intelectuais, a Bondade revela a realidade às minhas capacidades volitivas e morais, aquilo que Aristóteles chamou de ethos, e Platão (TURLEY,2019, p.14).

Assim, Turley resume que, para Platão e muitos filósofos e teólogos clássicos e cristãos que vieram após ele, Beleza é “o encanto, o esplendor, o deleite, a delicadeza do Verdadeiro e do Bom, que conduz o ser humano à Verdade e à Bondade na ocasião de direcionar o desejo ardente dentro do ser”.


Agora, é crucial notar que a Beleza é um tipo de física no mundo clássico. E por isso que associamos Beleza à atração; Beleza é força gravitacional, um raio trator (essa é para vocês, fãs de Star Wars!). Mediante a Beleza somos tragados para o Verdadeiro e o Bom, a fonte divina da vida, pelo despertar de nossos desejos. Nós desejamos tudo aquilo que achamos belo.
Essa é a primeira coisa da qual queremos nos certificar que de fato entendemos: a Beleza é uma física. A Beleza não é, enfaticamente, um sentimento ou uma preferência pessoal; ela não é opinião ou inclinação subjetivas. No mundo clássico, a Beleza opera da mesma forma que a lei da atração; trata-se de uma atração gravitacional que existe exterior a mim e me atrai para determinado lugar. Por definição, a Beleza — como esplendor e deleite — deve atrair-me ao Verdadeiro e ao Bom. (TURLEY,2019, p.15).

Contudo, alguém poderia argumentar: “Nem tudo o que considero belo é verdadeiro e bom!”. Na verdade, se algo que julgamos belo nos atrai e nos seduz para o que é falso, prejudicial ou enganoso, então esse algo não é verdadeiramente belo, mas apenas uma ilusão de beleza, cuja visão míope da alma pode enganar-se. Assim como algo não deixa de ser verdadeiro por não ser percebido pela minha visão embaçada e míope, o belo também não deixa de ser belo por não ser reconhecido ou por não apetecer ao gosto subjetivo. Esse gosto, afinal, é influenciado por numerosos fatores que podem afastá-lo de uma percepção mais clara da realidade. Por isso, devemos dizer não ao Relativismo.

“A Verdade, a Bondade e a Beleza não estão separadas — elas dependem umas das outras e uma conduz à outra. E se a Beleza for desprovida de sua natureza transcendente e realocada para somente dentro dos processos psicológicos particulares, logo a Verdade e a Bondade farão o mesmo” (TURLEY,2019).

Segundo Agostinho de Hipona, Deus não apenas criou todas as coisas boas, mas também concedeu ao ser humano uma sensibilidade especial para apreciar a beleza presente na criação. Como afirmou Salomão em Eclesiastes: “Ele fez tudo formoso a seu tempo” (Ec 3:11). E para Hans Rookmaaker (1922–1977), em O dom criativo, a beleza é vista como uma dádiva divina:

A arte cumpre sua tarefa quando proporciona ao próximo coisas belas, uma alegria perene. A arte está diretamente ligada à vida, à alegria, à profundidade de nosso ser, simplesmente por ser arte, e, portanto, não precisa de justificativa externa. É assim porque Deus, que criou a possibilidade da arte e que pôs beleza na criação, é o Deus da vida e quer que as pessoas vivam. Deus é o Deus da vida, o doador da vida (2019, p. 103).

Além disso, como Roger Scruton em seu livro Beleza pontua, “experimentamos beleza quando vemos algo como parte de um todo maior”. Logo, uma de suas características é justamente nos conduzir ao transcendente.

Assim, ao considerar essa conceituação do Belo, é necessário reconhecer também a existência de aspectos técnicos que nos permitem julgar um objeto, “há normas para a arte como parte da criação de Deus. Sem elas, a arte seria um nome vazio, sem sentido” (ROOKMAAKER, 2018).

Logo, o que nos auxiliará no julgamento da Beleza de uma obra de arte ou arquitetônica será a utilização de parâmetros como, por exemplo, observar qual o tema ou a mensagem daquela obra, qual a técnica empregada; analisar como as cores são aplicadas e quais as emoções que elas provocam; como as linhas estão dispostas e suas funções, qual o nível de complexidade, realismo ou expressividade, etc. Esses são apenas alguns critérios que nos orientam a avaliar não apenas uma pintura, mas a Música, Literatura e também a Arquitetura. Assim, conforme cresce o conhecimento teórico e aprofundado sobre determinada arte, maior será o poder de julgamento e identificação do grau de beleza de uma obra, bem como também maior será a sua apreciação artística.

Para melhor explicar a existência de graus de Beleza, podemos usar como exemplo análogo a visão de Agostinho da ordo amoris, a correta orientação e visão dos nossos amores. Em Gênesis, vemos que Deus criou um mundo que é bom, e nessa criação existe uma economia ou ordem. No momento em que Ele criou o homem, Ele disse: “Eis que era muito bom”. Nesse trecho, encontramos um superlativo. Todas as coisas criadas foram boas, mas o homem era “muito bom”. Lewis encara essa bondade bem ordenada como guia para orientar as nossas afeições. Por exemplo, um sanduíche e uma criança são bons. Mas se ambos caírem de um penhasco e eu socorrer o sanduíche, isso demonstrará que há algo de errado com meus amores, cuja disposição se afasta da ordem criacional (TURLEY, p.19).

Assim, é possível aplicar esse exemplo no julgamento do Belo. Devemos admitir que, assim como na ordem criacional, existem formas mais belas que outras, e formas mais adequadas para determinados usos que outras. E é chegando nessa conclusão, que nos encaminharemos para ter parâmetros na construção de nossas igrejas reformadas.

Ademais, vale ressaltar que a Beleza não está presa a um estilo ou linguagem específica, e que nela existem variações, diversidade e diferentes níveis, como encontrados na própria Natureza. Por isso, no decorrer da história, na Arquitetura e nas outras formas de Arte, diversas linguagens foram surgindo, mas todas com um ponto em comum: a busca pela Beleza. Isso perdurou até chegarmos na Pós-Modernidade, onde os conceitos são descontruídos, a moral é questionada e a verdade é vista como relativa. Não é sem razão que tudo passou a ser arte, até uma banana com um adesivo ou um mictório exposto no museu.

É preciso, portanto, uma reflexão maior em nosso meio protestante reformado sobre isso. Pois, como Rookmaaker já disse: “a Arte desempenha um importante papel na liturgia da vida; na maneira como fazemos as coisas”. Além de transmitir uma mensagem para o mundo sobre o que defendemos, o ambiente arquitetônico tem a capacidade de influenciar profundamente o comportamento humano. Considere como o ambiente de um restaurante, consultório médico ou shopping center é projetado para influenciar suas emoções e experiências, desde a iluminação e a decoração até os sons e a disposição do espaço. Portanto, até a cor do piso e a forma estética de nossas igrejas influenciam indiretamente nas ações e na liturgia do nosso culto a Deus. Um local inadequado, desprovido de beleza e de elevação, pode influenciar imensamente nas sensações humanas. Quando apagamos as luzes, colocamos um palco, instrumentos desordenados, púlpito irreverente; criamos, assim, um ambiente mais propício a um show e irreverência do que um local sagrado (separado) para ajuntamento solene prestado ao Deus glorioso. Logo, é a nossa liturgia reformada que deve influenciar e determinar o espaço de culto, não o contrário. Será, portanto, que não temos formas mais belas e adequadas para comunicar nossa fé no espaço litúrgico?

Francis Schaeffer também disserta excelentemente em seu livro Arte e Bíblia sobre o tema: “O cristão deve usar a arte para glorificar a Deus, não simplesmente como propaganda Evangelística, mas como algo belo para a glória de Deus. Uma obra de arte pode ser, sem si, uma doxologia”. A arquitetura de nossas igrejas também pode ser um “discurso de louvor” que anuncia a glória e majestade (Sl 96:6).

“À medida que nossa sociedade se torna mais e mais secular, há uma tentativa de repensar a igreja, remover todos os artefatos de “igrejice”: livrar-nos dos púlpitos, dos bancos característicos, transformar a igreja em algo parecido com uma sala de concerto, e tornar a adoração como um ministério externo que tem o propósito de ser interessante, animador e ‘divertido’.” (R.C. Sproul, Apascenta o meu rebanho, 2019, p. 88.)

Portanto, o que nos resta como arquitetos e artistas cristãos é refletir se a forma como estamos construindo, escrevendo, pintando e fazendo música reflete e busca ser aquilo que fomos chamados para ser: imitadores de Deus. Pois, como Abraham Kuyper menciona, imitamos a Deus quando buscamos a beleza e excelência naquilo que fazemos.

Tendo isso em vista, será que temos construído nossas igrejas reformadas hoje pensando nesses princípios?

No próximo texto, exploraremos a história para entender como chegamos ao ponto em que estamos.

FONTES

TURLEY, Steve. Beleza Redimida. SP: Trinitas, 2019.

KILBY, Clyde S. As artes e a imaginação cristã. Brasília, DO: Editora Monergismo, 2024.

AGOSTINHO, S. Confissões. Trad. Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984. Coleção Espiritualidade.

ROOKMAAKER, H. S. O dom criativo. Trad. William Campos da Cruz. Brasília, DF: Monergismo, 2018.

SCRUTON, R. Beleza. Trad. Hugo Langone. São Paulo: É Realizações, 2013.

QUINTILIANO, Douglas. Beleza como dádiva divina. Disponível em: <https://theinvisiblecollege.com.br/a-beleza-como-dadiva-divina/>.

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